“Eu me lembro”, a declaração de amor de Paulo José a Porto Alegre

Em discurso, o ator revisitou suas lembranças, juntando musas, times, ruas, músicas, propagandas, filmes e poemas

Ayrton Centeno
Brasil de Fato | Porto Alegre | 12 de Agosto de 2021 às 00:32

No palco, com a filha Ana Kutner, apresentando o espetáculo “Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César” no 17º Porto Alegre em Cena – Divulgação

Gaúcho de Lavras do Sul, Paulo José (1937-2021) chegou a Porto Alegre em 1954. Na cidade, formou o Teatro de Equipe com Paulo César Peréio, Luis Carlos Maciel, Itala Nandi, Ivette Brandalise entre outros jovens atores e atrizes. Depois, seguiu carreira em teatro, cinema e televisão no Rio e em São Paulo. Em 1999, recebeu o título de Cidadão de Porto Alegre da Câmara de Vereadores e retribuiu com um discurso amoroso no qual abriu seu fantástico baú de memórias. Confira: 

“Eu me lembro do meu primeiro encontro com Porto Alegre. A família vinha de Bagé, de carro, era noite. Eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a Ponte Seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, em Veneza, o Arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Parlament House com o Big Ben, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento.

Eu me lembro que o Pão dos Pobres ficava nas margens do Guaíba, lá onde a cidade acabava. Eu me lembro que a lancheria das lojas Americanas era o ponto chique da cidade. Eu me lembro que tinha até banana split. Eu me lembro que eu sabia de cor todas as transversais da Avenida Independência, do Colégio Rosário à Praça Júlio de Castilhos: Rua Barros Cassal, Rua Thomaz Flores, Rua Garibaldi, Rua Santo Antônio, Rua João Telles. Eu me lembro da Pantaleão Teles, da Cabo Rocha, American Boite, Maipu, Gruta Azul. Eu me lembro do conjunto Norberto Baldauf, da Orquestra Espetáculo Cassino de Sevilha, do Conjunto Farroupilha, dos Quitandinha Serenaders: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda chora…” Lembro da tristeza da minha mãe quando emprestei o violão do meu irmão para um baiano que estava passando uns tempos aqui em Porto Alegre. Eu me lembro que o meu violão nunca mais voltou e que o baiano se chamava João Gilberto.

Continue lendo ““Eu me lembro”, a declaração de amor de Paulo José a Porto Alegre”